sexta-feira, 15 de maio de 2020

Ave Maria


O texto latino clássico do “Ave Maria”, tão musicado por compositores de todo o mundo sofreu desde a sua origem, através dos tempos, um processo de variação e de alongamento, até chegar ao texto atualmente aceite na liturgia católica.
Na igreja ocidental foi usado como canto litúrgico a partir do século IV, mas apenas com as palavras registadas como  proferidas pelo anjo Gabriel, na Anunciação a Maria “Ave Maria, gratia plena. Dominos Tecum”.
A partir do século VII juntaram-lhe as palavras de Santa Isabel: “Benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui”. 
Na Antífona de S. Gregório Magno aparece pela primeira vez como Ofertório do Domingo IV do Advento.
No século XIV foi introduzida a terceira parte, que era diferente da actual redacção: “Santa Maria, Regina coeli, dulcis et pia, o Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, ut cum electis te videamus”.
E este texto começou a ser utilizado nos motetes polifónicos, a partir do século XV.
Foi no século XVII que foi adotado o texto usado atualmente, modificando a segunda parte: “Santa Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus nunc et in hora mortis nostrae. Amen”
É muito importante atentarmos nesta modificações ao longo do tempo para encontrar manipulações de partituras antigas, que actualmente nos são apresentadas com textos que não pertencem à época em que foram escritas.
Inicialmente as peças gregorianas do Ave Maria pertenciam a lugares fixos dos Ofícios Litúrgicos, mas com o surgimento de versões polifónicas e principalmente a partir das obras dos compositores românticos (Mendelssohn, Liszt, Verdi, etc.) o Ave Maria converteu-se em motete independente.
O Ave Maria de Victoria: Foi o compositor, Tomás de Victoria nascido em Ávila, um dos primeiros que escreveu polifonicamente sobre o texto do Ave Maria. Mas deveremos falar de duas versões do Ave Maria, atribuídas a Victoria. A primeira, menos conhecida, é uma partitura para 8 vozes mistas e com texto próprio do século XV, igual á que compôs Palestrina para 4 vozes mistas. A segunda, a que universalmente se conhece como a Ave Maria  de Victoria, com o texto oficial actual.
O grande musicólogo Samuel Rubio publicou no IV Volume da sua obra “Tomaz Luis de Victoria/MOTETES” as duas partituras do Ave Maria. 
Ainda que nesta edição não faça nenhuma observação, no entanto, nos cursos de musicologia que orientou afirmava que é muito duvidoso que o famoso Ave Maria de Victoria seja realmente dele.
Razões:
a)     A tonalidade de Re em que está escrita não usual em Victoria.
b)    A cadência plagal encontra-se cortada em dois acordes, caso único em Victoria.
c)     Entre 1583 e 1603, vivendo Victoria em Roma, for5am editados por Milán Y Dilinga os seus Motetes marianos e não se encontra entre eles esta partitura.
d)    Neste Ave Maria o texto de Sancta Maria é do século XVII.
e)     A cadência final está escrita em uníssono, algo raríssimo em Victoria.
f)      A autoria do Ave Maria de Victoria data do século XVII, depois da morte daquele compositor.

O Ave Maria de Arcadelt: Jakob Arcadelt, compositor holandês nasceu antes de 1514 e faleceu em Paris depois de 1557, distinguiu-se por ser madrigalista  com um estilo muito pessoal.
 Quanto à sua Ave Maria, ainda que não tão conhecida e difundida como a de Victoria, cabe-nos afirmar que, graças à sua estrutura harmónica agradável e de fácil aprendizagem, foi editada diversas vezes, nos últimos anos e é atualmente interpretada por muitos coros. 
No entanto é demasiado evidente que Arcadelt não pode ter escrito aquela partitura, uma vez que o texto utilizado é o do século XVII, época em que ele não viveu.
O musicólogo italiano J.A.R. Casimiri escreveu na revista “Note d’Archivio per la Storia Musicale” (1942) o trabalho “Uma canção verdadeira e uma falsa Ave Maria”. Explica a manipulação efectuada com esta partitura, que originariamente era uma canção popular.

O Ave Maria de Schubert: Esta popularíssima partitura tem gozado e continua a gozar do agrado geral, o que a coloca em lugar de grande destaque entre todas as outras. 
Por amor à verdade cabe-nos afirmar que esta Ave Maria não tem o sentido de que temos vindo a falar.
Schubert escreveu uma composição para voz e piano, em 1825, Op. 52 com o nome “Ellens Gesang I, II, III”, sob o texto do poema “The Lady of the Lake”, de Walter Scott, traduzido para alemão por Adam Stork. A terceira parte da obra é o Ave Maria. Aqui deixamos o texto original:
                   Ave Maria, Jungrau mild,
                   Erhöre einer Jugfrau Flehen,
                   Aus diesen Felsen starr und wild
                   Soll mein Gebet zu dir hin when.
                   Wir schlafen sicher bis zum Morgen,
                   Ob Menschen noch so grausam sind.
O Jungfrau, sieh der jungfrau Sorgen,
O Mutter, hör ein bittend Kind!
Ave Maria!

Ave Maria! Doce Virgem,
Escuta a prece de uma jovem
Daqui deste lugar inóspito,
A minha oração deverá chegar até ti.
Nós dormimos até amanhecer
Apesar da crueldade dos homens.
Oh Virgem, olha
As desditas desta jovem,
Oh Mãe, ouve
A uma filha que te pede!
Ave Maria!

O texto continua, repetindo-se pela terceira vez o tema musical.
 O acompanhamento é somente pianístico.
Franz Schubert não tinha intenção de escrever com esta obra uma partitura religiosa, das mesma forma que não o são as outras duas primeiras partes da sua Op. 52, “Ellens Gesang I, II, III”. Em  1842 o seu irmão Ferdinand Schubert converteu esta peça numa versão orquestral, de forma a poder interpreta-la numa igreja. Depois, multiplicaram-se as adaptações por “arranjadores” completamente estranhos ao compositor, adaptações corais ou com solista, com diversos e variados textos, e entre nós latim e castelhano, normalmente mal adaptadas.

A Ave Maria de Gounod: Está fora de questão que esta partitura deu uma enorme celebridade ao compositor parisiense Charles Gounod, que inicialmente a escreveu como “Meditação sobre o primeiro prelúdio de Bach”. Face a este facto justifica-se uma análise cuidada da sua génese e popularização.
Vamo-nos servir para este desiderato de uma linhas escritas por um dos seus biógrafos, Camille Bellaigue: “Melodia muito fácil com duas ou três páginas apenas, a Meditação sobre o primeiro prelúdio de Bach, muito fez, talvez mais do que seria lógico, pelo glória de Gounod ... Sains Saëns referiu, com muito espírito, as transformações e deformações por que passou esta pequena peça. No princípio apenas se tratava de uma melodia para violino, acompanhada pelos acordes, em harpejo do piano, tal como acontece num prelúdio clássico, no entanto «um coro a seis vozes, cantando em latim, fazia ouvir misteriosamente, fora de cena, os acordes que suportavam a melodia.
 De seguida foi o coro eliminado, sendo substituído por um harmónio; .... após o que se juntou uma orquestra, sem esquecer os bombos e os tímpanos ... e o público delirou com este monstro.”
Esta adaptação mostra-nos do que era capaz Gonoud ... 
O velho Bach eventualmente teria aplaudido a ardente cantilena que nasceu a partir do seu impassível prelúdio. 
De certeza esta melodia não se assemelha, de forma alguma com esses acordes ... No entanto, uma vez que nasceu a partir deles ... encontrava-se imbricada neles e por isso, responsabilizada por eles.” (Edit. Tor, Buenos Aires, 1942).
O Ave Maria de Uzandizaga: Esta partitura, extraída da Pastoral Lírica Basca “Mendi mendian” que é tão popular no País Basco, tem também uma história.
Devemos informar que “Mendi mendian”, a quando da sua estreia continha partes faladas. 
Na parte cantada era utilizada a língua basca (Euskera) e nos diálogos era utilizado o castelhano.
 O texto original, que foi todo escrito em castelhano era de José Power. 
A versão das partes cantadas em basco era de José Artola, nascido em S. Sebastian, nome que nunca aparece nas edições daquela peça.
A ideia de suprimir as partes faladas e de transformar a Pastoral Lírica numa ópera exclusivamente cantada, foi de Francisco Gaskue.
No que se refere à célebre Ave Maria, cabe-nos afirmar que nos primeiros manuscritos de José Maria Usandizaga, esta partitura não era uma Ave Maria, mas apenas uma oração à Virgem.
Na Pastoral um grupo de romeiros em festa visita uma ermida nas redondezas da aldeia, entram nela a cantam à Virgem a seguinte oração:
                   Ama Maria, eder zerana
                   zoragarria besterik ez da ...
                   Zu beziñ garbia, Zu zera beti
                   biotz bera da biguña
                   Zu begira emen gaude;
                   erruki zaite guzaz oparo,
                   artu eskariak samurkiro
                   ta lagundu gero. Amen.

Nos manuscritos de José Maria Usandizaga existe uma cópia da oração à Virgem com o texto em basco, que acabamos de transcrever. 
No entanto, existe uma cópia do Usandizaga com o texto em latim do Ave Maria, versão que foi publicada e é aquela que normalmente é utilizada. 
Ignoramos que razões teve o compositor para introduzir esta modificação.
O que não existe qualquer dúvida é que a peça foi imaginada com o texto em língua basca, e que posteriormente foi introduzido o texto latino.
Com estas breves linhas não se teve qualquer outro propósito, senão “avisar” os utilizadores das Ave Marias mais populares para terem uma ideia dos caminhos que pisam.
São muito os compositores bascos que musicaram este texto tão famoso e todos eles deixaram a sua obra aos interpretes sem qualquer complicação: Hilarión Eslava, Felipe Gorriti, Nemésio Otaño, P. Donostia, Jesús Guridi, Luis Irruarrizaga, Norberto Almandoz, Luis Aramburu, Luis Urteaga, Francisco de Madina, Tomas Garbizu, Lorenzo Ondarra, Javier Busto e um enorme etc.



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