quarta-feira, 6 de maio de 2020

Olhando é que se vê

Olhando é que se vê
Escrever um texto?? Como escrever um texto??? Por que escrever um texto??
Gosto de escrever algo em forma de texto.
Contar do brilho no chão causado pela iluminação proveniente do teto.
Olhar a diversidade das pessoas que passam : seus corpos, o modo de se vestirem, os penteados, os braços balançando para frente e para trás, o andar agitado, gingado ou não, o pisar torto, desregulado, na bípede instabilidade do ser humano.
Aprecio a ornamentação local.
Vasos de barro brilhantes, coqueiros ( verdadeiros ou não ) , antúrios, palmeiras e outras variedades suculentas que não conheço.
E a ornamentação local ?
Vozes diversificadas.
Odores em geral, variados, secos, doces, amargos.
A escada rolante sobe e desce ininterruptamente.
A criança que grita querendo um não sei o que. Perturba insistentemente papais e mamães irritados com a gritaria.
O homem gordo usa bengala, será que seus joelhos não suportam mais seu peso exagerado??
A mulher idosa está com sacolas coloridas penduradas nos ombros.
Shorts, calças compridas, camisas, camisetas, sandálias, sapatos, tênis chuleirentos.
Mochilas, bolsas. bolsinhas, sacos, sacolas e celulares, muitos celulares.
Ah!!! e chapéus, bonés, faixas nos cabelos, laços, lacinhos, laçarotes....
Ao fundo o segurança, de terno preto, gravata e crachá, muda o peso de seu corpo direta, esquerda, deve estar com alguma dor no corpo mas está atento.
E os cabelos, isto sim é legal, longos, curtos, tranças, coques, rabo de cavalo, vermelhos, azuis,
trancinhas aos milhares, brancos, cinzas, jubas, arrepiados qual filme fantasmagórico, carecas...
Acho interessante usar óculos na cabeça, ou na testa. Penso se isto funciona para enxergar melhor.
Bebês, crianças, adolescentes, idosos num amontoado geral.
Casacos amarrados na cintura, acho que o traseiro está com frio.
Ouço vozes com seus diversos comentários, sons variados num tremendo burburinho. muitos semblantes sorridentes, outros muito carrancudos, alguns até gritam com suas parceiras.....
Ouço o canto de um passarinho é um som mentiroso, eletrônico que vem lá de fora, da rua, dos vendedores ambulantes que rondam o shopping.
Saio dali e me misturo ao rebuliço local.
Para onde vou???
Sigo um caminho que nem sei onde vai parar....

Livro Só 04

terça-feira, 5 de maio de 2020

Meu Fofão


Meu Fofão
Os segundos se transformaram em horas
As horas em longos meses de saudade
Os minutos foram de tormentos aumentados em incredulidade e amor
Você se foi muito rapidamente
Ouvi vozes às quais segui
E me condeno por isso
Você me enviou poucos sinais e nada percebi de errado em teu corpo tão lindo
Só teus olhos entristecidos
Cansaço?  Poderia ser!!!!
As vozes me diziam para eu esperar ... e, eu esperei mais um dia
48 horas se passaram após seu divertido passeio fugitivo ao lado dos seus
Correu alegremente   16 patinhas alegres, orelhas balançantes, língua rosada pendente  lateralmente
Ao meu chamado, chegam as 16 patinhas até mim
Nada errado, tudo certo   última refeição   última noite   descanso natural
No sol escaldante do novo dia te encontrei mais perto de mim
Te observei melhor e as vozes diziam : normalidade
Não, nada normal   procurar socorro
De início nada concreto   exames foram iniciados
No exame de sangue aparece o problema   desidratação já avançada
Vi teu sangue engrossado   quase parando de circular   sem salvação
Silenciosamente tudo estava parando
Sem dor, sem lamento   seus últimos momentos foram em seu lar
As 04 patinhas procuraram um local fresco
Olhar atento à minha presença
Ao nascer o novo dia você já não estava mais em nosso meio
Teu corpo ainda morno, relaxado
Minha Ana Fofa linda   Meu Fofão calado descansando para sempre
Arisca, contadora de casos, desconfiada, super amiga
Sempre minha amiga Ana Maria Fofa.

SolCira
25 de setembro de 2018

Livro Só 04

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Minha Laranjeira


Minha Laranjeira
Há mais ou menos 05 anos atrás degustei uma saborosa laranja. Adocicada mas, não muito. Vida fervilhando em cada gomo. perfeita acidez. Odor delicioso. Ao primeiro olhar fiquei encantada. Ao ter contato com a fruta meu corpo sorriu e com prazer exultou. Indescritível sensação tomou conta de meu ser ao degustá-la. Reverenciei à natureza que se faz em alimento. Agradeci à Deus pela oportunidade de saborear esta fruta, de poder vê-la, sentí-la dentro de meu corpo. Minha mente exultava em prazer. Meu corpo estremecia ao seu sabor. Separei dela as sementes e de sua casca fiz um poderoso doce .Eu e a laranja ficamos unidas e nos sentimos parte uma da outra. As sementes foram para um vaso com terra e depois de um tempo, uma semente especial explodiu em vida. Lançou ao céu suas primeiras folhas. perfurou a terra com sua raíz diminuta, forte e determinadamente se fixou ao solo buscando nele seus nutrientes. Todos os dias acompanhei o crescimento dela. Acariciei suas primeiras folhas e seu tronco fino e delicado. Seu crescimento foi lento mas seguro. Conversar com ela era e é divertido. Assim, ela cresceu. Folhas de fresco verdume e odor inigualável. Muitas vezes pedi 03 folhas e fiz um chá delicioso. Outras vezes, usava 01 folha como perfume. Querida laranjeira cuja semente esteve em minha boca. Como um filho que precisa de espaço para crescer, minha laranjeira também assim precisou. Temerosa, levei-a para a calçada em frente a minha casa. Conversamos antes disto. Ela era um bonzai natural fixado em um balde azul. Ali na calçada ela não ficou só. Outras árvores já minhas conhecidas estavam lá e a minha espada de São Jorge também. Sei que foi difícil para ela se convencer de sua potencialidade. Acostumada num balde como casa se sentiu temerosa durante algum tempo. Ali ficou uns anos quietinha mas, todos os dias eu passava lá. retirava insetos que queriam se hospedar nela. Regava-a. Vi seu tronco tomar força e vigor. Ela estava consciente de não ser mais um bonzai e que estava livre para crescer e frutificar. Vi seus primeiros espinhos aparecerem qual agulhas pontudas, proteção natural das laranjeiras. Há um tempo atrás batemos um belo papinho : disse-lhe que achava que eu não teria tempo para ver-lhe flores e frutos. Seu crescimento lento, sua infância e adolescência eu já havia visto mas, achava que sua fase adulta e fértil eu não presenciaria. Setembro chegou ( 2016 é o ano ) . Meu aniversário é dia 11 de setembro. Faço 67 anos. Hoje é dia 05 de setembro de 2016 e recebi meus primeiros presentes de aniversário. Minha laranjeira está florindo. Estou emocionada. Flores pequenas, brancas, lindas onde abelhinhas vêm buscar o doce pólen. Algumas flores já estão dando origem aos frutos miúdos, verdinhos, uma pequenina bolinha que irá se transformar numa laranja. Querida laranjeira, filha adotiva, agora adulta. Cresceu, mostrou seu vigor, sua altivez. Que mais posso querer como presente? Agora estou esperando o crescimento de suas frutas mas existe uma preocupação. As crianças terão respeito e deixarão suas frutas amadurecerem ? Crianças são curiosas e alguns adultos também. Como encarar o perigo que suas frutas estão correndo? Vou tentar protegê-la para que seu ciclo se complete. Ah!! esqueci de contar que ela já abrigou um ninho de passarinhos e já começa a dar sombra fresca aos que passam pela calçada.
Obrigada laranjeira pelo presente que você me ofertou.
Obrigada a Ti, Deus de meu coração por me ter encantado com aquela bela laranja no supermercado.
Presente de Deus, presente de visa, presente da vida.
SolCira
2016

Livro Só  04

Era isso que eu temia, ele é poderoso


Era isso que eu temia, ele é poderoso.
Eu vi e não vou contar mas, se enrola como uma serpente subindo no corpo, na alma da gente. 
Gelando, petrificando, fazendo a carne tremer no sombrio desejo de amar. 
A água escorre na pele provocando fumaça no espelho. 
Seja lá o que te persegue não se encontra aqui. 
A fé que você quer está no rosário em teu pescoço e na cruz entre teus seios.
 A escuridão que havia se foi dissolvida no batom que avermelha tua boca. 
Máscaras de vivos olhos perseguem teu andar. 
A escultura prateada vira seu rosto em sorriso debochado, fala, troca a espada por uma caneca sanguinolenta. Adormecido o corpo, a mão se deleita em prazerosos toques.
 O grito atordoante se espalha . 
O cão que late e assusta os ouvidos envolvidos em um sussurrante falar.
 Ele sabe onde você está e te persegue, não há onde se esconder, onde calar os gemidos ressonantes. 
A janela é fuga, libertação da prisão dentro e fora do quarto ameaçador. 
No rosto de dourado angelical surge a voz satânica do mal. 
O corpo se eleva possuído, não se debate e, com serenidade pousa sobre os brancos lençóis.

 SolCira
2013
 Após assistir O último exorcismo parte 02

Livro Só 04

domingo, 3 de maio de 2020

Quarto andar de um lugar qualquer


Quarto andar de um lugar qualquer
Quarto andar de um lugar qualquer
Limpeza, luzes, vidas diversas
Cheirinho de pipoca, cachorro quente, sorvete, salada de frutas
Dois grandes restaurantes em perfeita ebulição
As escadas rolantes sobem e descem sem parar
A clara-bóia ilumina, dá brilho, chama a alegria, ao bem estar
Ao chegar uma olhada rápida ao centro
Dali, encostando no para-peito você olha para baixo
A perspectiva é forte, vai ao primeiro andar
Visão extraordinária     O olhar é rápido, assusta     O desejo de voar, abolir distâncias
Chegar mais rápido que todos
Ser o primeiro no primeiro andar
É envolvente     É liberdade     É deixar tudo para trás
É cair... cair... sumir... acabar
O som surdo no chão do primeiro andar
O sangue vermelho se espalha no piso brilhante
O corpo do homem quadriculado marca a história de Natal
Ali, para sempre, uma lembrança
Ali, milhões passarão em cima da vibração da morte
Pisarão o local da desesperança     Nenhum marco será ali levantado
Simplesmente alguém se jogou do quarto andar e morreu
Morreu de amor, de paixão, de desejo, desventura
Na tarde luminosa, no chão luminoso
Na luz de uma alma que se esvai em luz para a luz
SolCira
22DEZ2017
Livro Só 04

O que tem a comunicação com o rio


O que tem a comunicação com o rio
Sei que a comunicação não pode ser estanque e ela varia como varia a sociedade ,com a atualidade  tecnológica, com o local onde vivemos .Antigamente, e isto não é tão longe assim, a comunicação era feita através de cartas ou recados enviados oralmente ou por bilhetes.
Nas escolas eram ensinados a escrever uma carta e bilhetes a amigos. Bilhetinhos para lá, bilhetinhos para cá.Comunicados assinados, datados, cartas longas, curtas, cartões postais.O rádio era a novidade e vi " o rádio de pilha " entrar nos ombros de meu pai que, sorria dando um susto em mim e em minha mãe.
Rádio que nos acompanhou durante anos seguidos. O tamanho qual um tijolo, cor de papel pardo não muito escuro, couro cobrindo toda a superfície. Tinha uma alça para segurar e enfeites dourados. O dial era uma grande circunferência transparente. As pilhas eram enormes e o som bem alto. Nunca precisou de concerto e um belo dia parou. Ficou enfeitando o armário até que não o vi mais.
Como tudo na vida há um tempo determinado para findar.
Morávamos perto de um rio. Em suas margens eu brinquei com outras crianças, vi peixinhos, os famosos barrigudinhos mas haviam também os coloridos, com caudas longas bamboleantes. Do outro lado da margem caminhões pegavam areia. meu pai dizia que era para ser usada em obras. Era bom sentir o sol morno e brincar em suas margens de areia branca.
Interessante. Hoje este rio está manilhado, desapareceram as margens, os peixes, a vegetação. Nos pés de mamonas nós fazíamos guerra. haviam frutinhas que chamávamos de uvinhas do mato e que eram adocicadas. E o melão de São João Caetano com suas semente vermelhinhas era uma douçura. Os talos das folhas da mamona seriam para atirar bolinhas de papel ou fazer flautas mágicas.Quando a chuva era forte demais o rio enchia, trazia cães, cavalos, armários, troncos de árvores. Muitos animais não conseguiam sobreviver à sua fúria, a água ficava escura, tremendamente escura. Muitas vezes nossa casa chegou a ser inundada e me lembro que certa vez meu pai me colocou em cima da mesa para que eu ficasse protegida das águas do rio. Depois que as água baixavam íamos ver o que havia sobrado. O rio virava um mar em fúria e depois se acalmava.Assim como eu ia até ele ele vinha até mim. Rio danado cheio de lembranças infantis, hoje encanado.
Em alguns lugares ele ainda aparece e me traz lembranças de um tempo que se foi e que só se encontra em um local escondidinho de minha mente.
Há algum tempo atrás passei por cima dele, tudo asfaltado, comércio e ruas foram abertas mas, tenho certeza que ele estava lá como ainda vai estar mesmo quando meu corpo se acabar.
SolCira
18/07/2016


Faz parte do Livro Só 04

Lembranças dentro de uma caixa de biscoitos


Lembranças dentro de uma caixa de biscoitos
Numa caixa retangular de metal, já envelhecida pelo tempo, antiga embalagem de Biscoitos Aimoré, traz guardado em seu interior pequenas lembranças de vida.
Esta caixa tem por mim reverência pois é muito mais idosa que eu. Caixa de Pandora.
Sua tampa mostra esmaecida a figura de alguns papagaios verdes, vermelhos e azuis.
Abri-la é minha intenção e pela curiosidade que causei em você irei contar algo de seu interior.
Esta é uma das caixas que me acompanha desde criança. É a primeira que abrirei.
Ela oferece resistência mas consigo abri-la.
Aparecem retratos, postais, negativos ( se você não sabe, negativo é a revelação de uma foto numa película semi-transparente ), etc.
Contar algo destas fotos é um exercício de grande prazer, mas também de tristeza.
Em fevereiro de 1969, Celio participou de uma viagem à Bahia e aparecem aqui algumas fotos marcando esta viagem, a primeira é a Igreja de Monte Serrat, o farol, o forte, o Pelourinho, a Catedral de Salvador.
Posso ver o olhar entristecido que mostravas nas fotos, e creio ser por estar longe de mim..
Aparece uma série de fotos feitas em novembro de 1969 onde Célio esteve em Curaçao, Porto Rico, etc.
Esta viagem foi feita à bordo do NAEL Minas Gerais.
Uma galera de sunga e óculos escuros aparece sorridente pegando um solzinho em meio à viagem, na pista do Navio Aeródromo. Achei interessante a foto de Célio à frente de  um avião que está no navio, um brutamontes com as asas dobradas para cima. Pasmem, para caber vários aviões no navio as asas são móveis e podem ser dobradas como se fossem brinquedinhos ( hoje penso nos transformers ).
Ri muito quando ele mostrou uma foto com mais 04 colegas. Eles estavam num bar, disse ele que era o único bar aberto às 24:00 para que eles pudessem tomar um refrigerante. Olho bem a foto e vejo que realmente a mesa tem refrigerante. Um bando de marujos, fardados de branco, à meia-noite, num bar em Curaçao, tomando refrigerante. Esqueci um detalhe, uma vitrola, destas de bar, onde se coloca uma moeda e se escolhe a música...
Nesta viagem ele registrou o abastecimento de óleo feito no A11 Nael Minas Gerais pelo Petroleiro G27  Marajó, em alto mar.
Numa outra série de fotos aparece uma viagem à Espanha e Portugal. O frio intenso mostravam os marujos enluvados, em seus uniformes de cor azul-marinho, no cais de Lisboa onde se vê o Museu da Marinha em Lisboa e um jardim onde vejo uma estátua que eles acharam bonita, um homem peladinho, sentado numa pedra olhando interessado alguma coisa que segura em sua mão esquerda. De longe e pelo amarelamento da foto posso ver a força da musculatura e dos pequenos detalhes da estátua.
Na Espanha, mais correto em Cadiz, eles passaram pela Praça das Pombas, fazendo jus ao nome pois várias pombas estavam ali ( pombas racionais e irracionais ). Uma diversão a mais para os pobres marujos, longe de sua pátria mãe. Eles estavam de braços cruzados e muito indignados pois uma senhora passou e parou no exato momento da foto. Se fosse uma das palomitas da praça eles estariam mais contentes.
A máquina de retratos era automática e com um dispositivo temporizador e numa das fotos, após algum tempo esperando o clique da foto, Célio achou que estava demorando muito e se dirigiu até a máquina, só, que então clik. Foto pela metade.
Que impaciência, meu amor. A máquina te pegou numa surpresa.
Numa das fotos há um passeio de charrete pelas ruas de Cadiz mostrando várias crianças ao redor deles que jogavam moedas brasileiras, ao avanço. Crianças e marujos em plena diversão.. Nesta foto noto as casas com varandas floridas.
Voltando para o Brasil houve uma parada na Bahia, uma visita ao Pátio da Faculdade de Medicina, ao Museu de etnologia e uma linda estátua que parecia com Netuno com uma sereia.
Um amigo que conheci nesta época foi Arnaldo, nossa amizade ficou por longos anos. Ele, Josira e Bruno são pessoas que vivem em minha recordação.

SolCira
2016


Livro Só 04